Vozes de Autopia · 001 - A mesa que ninguém desfez


Autopia 2076. A fome foi resolvida há trinta anos. Esta é uma história sobre o que ficou para trás.


A cozinha estava limpa demais. Sempre estava. Desde que as barrinhas chegaram, a gordura parou de respingar no fogão, a tábua parou de cheirar a alho, a pia parou de acumular panelas no fim do dia. Tudo certo. Tudo no lugar. Tudo um pouco silencioso demais.

Beatriz ficou parada na porta por um segundo, olhando para o balcão vazio.

— O Caio foi pro quarto?

— Já foi, pegou uma barrinha pro almoço e sumiu.

Antônio estava sentado na cadeira de sempre, a mesma que ocupava quando eles jantavam juntos. Só que agora a mesa não tinha prato, não tinha copo, não tinha nada. Só ele, com a barrinha já consumida na mão, sem saber bem o que fazer com a embalagem.

— Quando foi a última vez que a gente comeu junto, os três?

Antônio pensou. Não deveria ter que pensar tanto.

— Acho no aniversário dele. Em março.

— Março. São quatro meses.

Não era acusação. Era espanto. O tipo de espanto que vem quando você percebe que perdeu alguma coisa sem ter notado o momento exato da perda.


No começo, quando as barrinhas chegaram, eles ainda cozinhavam nos fins de semana. Era quase um ritual de resistência — não vamos deixar isso morrer. Mas os fins de semana foram ficando cheios de outras coisas. Antônio com os projetos. Beatriz com os cursos. O Caio descobrindo o mundo com a velocidade que adolescente descobre.

A barrinha não tinha tomado a mesa deles. Tinha preenchido os buracos que a pressa já tinha aberto.

— Sabe, eu lembro quando a gente namorava, você e eu cozinhávamos juntos dividindo as tarefas. Era um tempo precioso pra mim, comer nossa comida. Às vezes, a gente brigava por causa do ponto do arroz.

— Seu arroz ficava empapado.

— O seu ficava duro.

Os dois ficaram quietos por um segundo. O tipo de silêncio que sorri por dentro.

— Desse jeito, o Caio nunca vai saber o que é brigar por causa do ponto do arroz.


Ela foi até a despensa. Abriu, fechou. Abriu de novo.

Tinha farinha. Tinha azeite. Tinha ovos — pegos por impulso duas semanas atrás no ponto de distribuição, ainda intocados.

— E se a gente fizesse panqueca amanhã de manhã? Podemos chamar o Caio pra fazermos e tomarmos o café da manhã juntos novamente.

Antônio olhou para Beatriz. Para os ovos. Para a mesa sem nada em cima.

— Ele vai reclamar que vai atrasar e ter de acordar mais cedo.

— Com certeza.

— E vai comer assim mesmo?

— Espero que sim e espero que brigue com a gente, e espero que nos reconciliemos depois de tomarmos o café.

Nenhum dos dois sabia ao certo o que estavam tentando recuperar. Talvez não fosse recuperação. Talvez fosse só isso — uma panqueca imperfeita numa manhã de sábado, um adolescente reclamando que vai atrasar, o cheiro de manteiga queimando um pouco no fundo da frigideira.

Os pequenos rituais do dia a dia não eram a solução. Eram gesto. E às vezes os pequenos gestos acumulados são o que existem.


Autopia. Um mundo que ainda não existe — mas poderia.

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