Por onde andamos, pra onde vamos?

 


Brasil, 2031. A automação eliminou 70% das atividades formais na última década. O governo implantou a Renda Básica Universal. As cidades foram aprendendo a ficar em casa.


Henrique

O ônibus veio com oito lugares vazios.

Contei. É o tipo de coisa que você começa a fazer quando tem tempo demais e pensamento de menos — contar o que falta. Três anos atrás esse horário vinha lotado, pessoal pendurado na catraca, motorista pedindo para circular. Hoje são oito lugares vazios e uma senhora com sacola de feira que desceu duas paradas antes da universidade.

A cidade foi esvaziando devagar, do jeito que essas coisas acontecem — sem aviso, sem data, sem ninguém declarando que tinha acabado alguma coisa. As lojas que fecharam viraram igrejas ou ficaram com papel craft na vitrine. O movimento que sumiu das ruas foi aparecendo nas janelas — as pessoas em casa, nas telas, no espaço que a renda básica comprou mas que ninguém sabia ainda como preencher.

Meu pai está nessa janela todo dia quando saio.

Ele não perdeu o emprego de uma vez — perdeu aos pedaços, ao longo de dois anos, até o dia em que o setor simplesmente não existia mais e não tinha o que fazer com isso. Agora está em casa. A renda universal cobre o básico — cobre mais do que o básico se a gente não desperdiça, se a gente não sai, se a gente não tem planos que custam dinheiro que não existe.

Minha mãe não disse isso com essas palavras. Mas disse.

Minha irmã foi embora no ano passado — foi morar com o namorado, saiu da conta, e minha mãe ficou dois dias sem falar sobre isso de um jeito que falava muito sobre isso. Aprendi a não fazer planos que tiram pessoas da conta. Aprendi sem que ninguém me ensinasse.

Entrei na universidade com a mochila pesada e o pensamento mais pesado ainda. A aula tinha acabado havia vinte minutos. Fiquei sentado enquanto os outros saíam, sem razão declarada, sem saber bem o que estava esperando. Às vezes você fica porque levantar exige uma decisão e você não tem decisão nenhuma sobrando.

Renato

Eu estava apagando o quadro quando percebi que ele ainda estava lá.

Sempre tem aluno que demora. Mas Henrique não estava anotando, não estava no celular, não estava fazendo nada que justificasse ficar. Estava só... parado. Com aquele olhar de quem foi longe demais dentro da própria cabeça e não encontrou saída por nenhum dos lados.

Conheço esse olhar. Já usei esse olhar.

Puxei a cadeira da fileira da frente e sentei de frente para ele como se fosse a coisa mais natural do mundo um professor sentar numa cadeira de aluno às nove da manhã de uma quinta-feira sem ser convidado. Tecnicamente não fui convidado. Detalhes.

— Henrique.

Ele olhou para mim como quem acorda de longe.

— Tudo bem?

Fez o gesto universal de tudo bem que todo mundo usa quando nada está bem e não sabe como começar. Esperei. Tenho sessenta e dois anos e aprendi que silêncio é a pergunta mais honesta que existe — não tem como responder com educação, só com verdade.

Ele não demorou muito.

Henrique

Saiu torto, em pedaços, começando pelo meio.

Falei das aplicações — duzentas e trinta e sete, tenho planilha — e das respostas que não vieram ou vieram com aquele "perfil não aderiu ao momento da empresa" que não quer dizer nada. Falei do colega que conseguiu estágio e passou quatro meses validando output de IA sem entender o que estava validando, sem nunca ter tomado uma decisão técnica real, e que no fim do contrato não renovou porque a empresa descobriu que podia fazer a mesma coisa sem o estagiário no meio.

Falei do curso.

Não com raiva — com aquela coisa mais difícil que raiva, que é a decepção que já esfriou. O curso fazia sentido quando entrei. As promessas faziam sentido. O mercado que me venderam fazia sentido. Agora estou no quarto ano e o mercado que me venderam está encolhendo e ninguém sabe bem o que colocar no lugar e os professores falam em adaptação como se adaptação fosse um destino e não um intervalo.

Depois falei do meu pai. Não ia falar do meu pai.

Falei da janela, da renda universal que cobre o básico se ninguém tem planos grandes, do peso silencioso de ser mais uma pessoa na conta ou menos uma pessoa na conta dependendo do que eu decidir fazer com a vida.

Parei no meio de uma frase.

O professor Renato não estava com pressa. Não estava olhando para o relógio nem com a expressão de quem espera a pergunta real para poder responder e ir embora. Estava presente do jeito que professor raramente está quando você mais precisa.

Isso me fez querer chorar. Não chorei.

Renato

Ele parou no meio de uma frase e ficou me olhando.

Ouvi tudo — as aplicações sem resposta, o colega que validou output de IA por quatro meses sem entender o que validava, o curso que prometeu um mercado que foi encolhendo enquanto ele estudava para entrar nele. Ouvi o pai na janela, a renda que cobre o básico se ninguém tem planos grandes, o peso silencioso de ser uma pessoa a mais ou a menos na conta dependendo do que decide fazer com a vida.

Fiquei em silêncio um momento.

Poderia falar sobre mercado, sobre tendências, sobre como a área ainda tem futuro. Tudo verdade. Mas verdade servida na hora errada vira sermão — e sermão é a coisa que professor mais faz e que menos funciona, e eu aprendi isso tarde demais e cedo o suficiente para ainda fazer diferença.

Pensei no sistema três andares abaixo.

Vinte e um anos de idade, construído em cima de tecnologia que ninguém usa mais, documentação que é uma obra de ficção científica — presente em partes, ausente nas partes que importam, contradizendo a si mesma nos momentos críticos. Quando cai, e cai uma vez por semestre com a pontualidade de coisa ruim, os horários de quatrocentos professores somem do banco de dados e o departamento inteiro regride cinquenta anos em dez minutos.

A última vez foram três dias. Três dias de caos administrativo, ligação de coordenador, email de direção, aluno no corredor perguntando se ia perder matrícula.

Eu tenho as chaves desse sistema. Tenho porque ajudei a construir, numa época em que havia verba e havia tempo e havia a ilusão coletiva de que íamos documentar tudo direito depois. Depois é o lugar onde vai a maioria das boas intenções da humanidade.

Olhei para o Henrique — para o cansaço de quem não tem mais o que perder — e pensei que não ter o que perder é, tecnicamente, uma forma de liberdade. Não a melhor forma. Mas forma.

— Já cometeu uma capivarada em produção? — perguntei.

Ele me olhou como se eu tivesse mudado de idioma no meio da conversa.

Gosto muito quando isso acontece.

Henrique

Não entendi a pergunta na hora.

Depois entendi que era exatamente isso — não tinha como entender de imediato porque a pergunta pressupunha uma experiência que o mercado nunca me deixou ter. Erro real em sistema real com consequência real que afeta pessoas reais que precisam daquele sistema para trabalhar.

Eu estudei sobre isso. Li sobre isso. Simulei em ambiente controlado onde o pior que pode acontecer é você reiniciar e recomeçar sem que ninguém saiba.

Nunca senti o peso.

— Nunca tive acesso a produção — falei.

— Eu sei — disse o professor Renato. — É exatamente isso.

Ficou um momento em silêncio. Depois falou sobre o sistema com uma honestidade que me pegou de surpresa — não vendeu, não romantizou. Disse que é velho, que é frágil, que a documentação é um desastre, que quando cai afeta horário de professor, lançamento de nota, matrícula de aluno. Disse que a última vez que caiu levou três dias para voltar e que nesses três dias ele atendeu reclamação de coordenador, de aluno, de direção, e que nenhum deles sabia que o sistema estava sustentado por decisões tomadas em 2003 por pessoas que já foram embora.

— Se você quiser, você entra nesse sistema. Vai cometer capivarada — não porque você é ruim, mas porque é assim que se aprende. Vai consertar. Vai entender por que foi construído do jeito que foi construído, que decisões faziam sentido em 2003 e quais eram gambiarra desde o início. — Parou. — Não tem remuneração. Não tem garantia de emprego. Tem problema real, consequência real, e alguém do outro lado que vai ligar reclamando quando você errar.

Olhou para mim.

— É o único jeito que conheço de formar alguém que sabe carregar peso de decisão. Não sei se ainda funciona. Mas é o que tenho.

Renato

Ele ficou em silêncio depois que terminei.

Vi a conta sendo feita — não de vantagem e desvantagem, mas de energia. Quanto sobrava. Se valia gastar.

Torci para que dissesse sim. Não porque o sistema precisa de alguém — precisa, mas isso é problema meu, não dele. Torci porque às vezes a única coisa que separa uma pessoa de afundar de vez é ter algo concreto para fazer de manhã, algo que quebra de verdade quando você erra e funciona de verdade quando você acerta. O mundo está cheio de ambientes controlados onde nada tem consequência. Consequência é o que forma gente.

Disse sim com a cabeça antes de dizer com a boca.

Anotei o acesso num papel. Login, senha, endereço do servidor, meu número de celular. Passei para ele.

— Uma coisa — falei, quando ele já estava levantando. — Quando você cometer a primeira capivarada, me liga. Não para eu consertar. Para eu saber que aconteceu.

Ele olhou para mim sem entender por quê.

Não expliquei. Algumas coisas perdem a graça quando você explica — como piada, como mágica, como o momento exato em que alguém começa a virar o que vai ser.

Fui apagar o resto do quadro cantarolando alguma coisa que nem sei o nome.

Bom dia, pensei. Finalmente.

Henrique

Saí com o papel na mão.

O corredor estava vazio do mesmo jeito que quando cheguei. O ar condicionado ainda fazia o mesmo barulho. Lá fora a cidade continuava com os seus lugares vazios, os ônibus com assento sobrando, as janelas com gente dentro que aprendeu a ocupar o tempo de outro jeito.

Meu pai ia estar na janela quando eu chegasse.

Pensei no que ia falar para ele. Não sobre emprego — sobre o sistema de vinte e um anos que ninguém quer tocar e que ia ser meu por um tempo. Sobre o professor que não prometeu nada e por isso prometeu a única coisa que importa — que o erro ia ter peso real.

Não sabia se ia funcionar. Não sabia se no fim ia ter emprego, ou futuro, ou alguma coisa que justificasse para minha mãe por que fazia uma coisa que não pagava nada num momento em que cada real contava.

Sabia que era movimento.

E movimento, quando tudo está parado, é o suficiente para hoje.


Autopia. Um mundo que ainda não existe — mas quem sabe?


Se esse conto tocou em algo, esses livros podem aprofundar:

📖 Em Busca de Sentido — Viktor Frankl — Para quem quer entender por que propósito não se encontra, se constrói.

📖 Geração Ansiosa — Jonathan Haidt — Por que os jovens de hoje têm tudo e estão mais perdidos do que nunca.

📖 Os Despossuídos — Ursula Le Guin — Um mundo que repensou trabalho, posse e pertencimento. E descobriu que a natureza humana vai junto para onde você for.

📖 Admirável Mundo Novo — Aldous Huxley — O que acontece quando uma sociedade resolve o sofrimento e perde o sentido junto.

📖 Torto Arado — Itamar Vieira Junior — Identidade, trabalho e o chão que some debaixo dos pés. Contexto diferente, ferida parecida.

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📖 Autopia, quem sabe né?

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